OBRAS EM HOSPITAIS DESAFIAM A ENGENHARIA E REFORÇAM A IMPORTÂNCIA DA INFRAESTRUTURA NA SAÚDE

Por: Ana Paola Hospitais, clínicas, unidades de diagnóstico e equipamentos públicos de saúde em todo o Brasil vêm passando por processos de modernização, ampliação, retrofit e adequação técnica para acompanhar o crescimento da demanda assistencial, a evolução das tecnologias médicas e as exigências cada vez mais rigorosas de normas sanitárias, regulatórias e operacionais. Essas intervenções, […]

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Por: Ana Paola

Hospitais, clínicas, unidades de diagnóstico e equipamentos públicos de saúde em todo o Brasil vêm passando por processos de modernização, ampliação, retrofit e adequação técnica para acompanhar o crescimento da demanda assistencial, a evolução das tecnologias médicas e as exigências cada vez mais rigorosas de normas sanitárias, regulatórias e operacionais. Essas intervenções, porém, apresentam um grau de complexidade muito superior ao de obras convencionais, pois precisam conciliar engenharia, biossegurança, continuidade do atendimento, controle de riscos e funcionamento ininterrupto de sistemas essenciais à vida.

Em uma obra hospitalar, cada decisão técnica pode interferir diretamente na rotina de pacientes, profissionais de saúde, equipes administrativas, visitantes e setores assistenciais. Diferentemente de uma edificação comum, um hospital não pode simplesmente parar suas atividades para que uma reforma aconteça. Muitas vezes, os serviços precisam ser executados com setores em funcionamento, fluxos ativos, pacientes internados, áreas críticas operando e equipes médicas trabalhando em regime contínuo.

Entre os principais desafios desse tipo de intervenção está a preservação da biossegurança. A poeira, os resíduos, o ruído, a vibração, a movimentação de materiais e a presença de trabalhadores externos ao ambiente hospitalar precisam ser rigidamente controlados. Em áreas sensíveis, como centros cirúrgicos, unidades de internação, laboratórios, diagnóstico por imagem, hemodiálise, hemoterapia ou ambientes com pacientes imunossuprimidos, qualquer falha no isolamento da obra pode gerar riscos à saúde.

Por esse motivo, reformas hospitalares exigem planejamento minucioso, setorização, barreiras físicas, controle de acessos, rotas independentes para materiais e resíduos, cronogramas compatíveis com a operação assistencial, comunicação constante com a administração hospitalar e integração com equipes de manutenção, hotelaria, segurança do trabalho e controle de infecção. A engenharia, nesse contexto, deixa de ser apenas um serviço técnico de obra e passa a atuar como parte da estratégia de continuidade da assistência.

Para compreender melhor os desafios envolvidos nesse tipo de obra, a reportagem ouviu o engenheiro civil Ricardo de Faveri, profissional com mais de dez anos de atuação em engenharia consultiva, projetos executivos, BIM, retrofit, obras públicas, infraestrutura predial e gestão técnica de contratos. À frente da R Faveri Projetos & Engenharia, Ricardo acumula experiências em projetos hospitalares, unidades de saúde, clínicas de diagnóstico, ambientes laboratoriais, edifícios institucionais e contratos públicos de alta complexidade.

“A engenharia hospitalar exige um nível de responsabilidade muito acima da média. Em uma reforma convencional, o foco principal está em prazo, custo e qualidade. Em um hospital, além disso, existe a obrigação de preservar vidas, manter serviços funcionando e reduzir qualquer risco à operação assistencial”, afirma Ricardo de Faveri.

A experiência de Ricardo inclui atuação em contratos relacionados à reforma da Unidade de Hematologia e Hemoterapia do Hemocentro do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu. Trata-se de uma tipologia extremamente sensível, pois envolve ambientes ligados ao atendimento em saúde, suporte hematológico, hemoterápico, armazenamento, fluxos técnicos e infraestrutura de apoio a serviços especializados.

Segundo Ricardo, atuar em uma unidade dessa natureza exige compreender que a edificação hospitalar não é apenas um conjunto de paredes, pisos e instalações. Ela funciona como uma infraestrutura de suporte à assistência. “Em hospitais, cada sistema predial tem uma função crítica. Elétrica, climatização, gases medicinais, hidráulica, esgoto, incêndio, dados, controle de acesso e acabamento precisam estar integrados. A falha de uma disciplina pode comprometer todo o funcionamento do ambiente”, explica.

Além do HCFMB, a trajetória de Ricardo de Faveri também inclui experiências em projetos hospitalares vinculados ao Fundo Municipal de Saúde de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, com atuação em diferentes setores na saúde pública. Esse tipo de contrato exige uma leitura ampla da rede assistencial, pois cada unidade possui demandas próprias, estado físico específico, fluxos operacionais distintos e níveis variados de complexidade técnica.

Nesses projetos, a atuação envolveu estudos, levantamentos, projetos básicos e executivos, retrofit, as built, projetos de demolição, estrutura, luminotécnico hospitalar, hidrossanitário, gases medicinais, climatização, prevenção e combate a incêndio, comunicação visual, cabeamento estruturado, chamada de enfermagem, CFTV, sistemas eletrônicos, acessibilidade, orçamento, cronograma, memorial descritivo e compatibilização de projetos.

“Quando trabalhamos com várias unidades de saúde, não basta replicar uma solução padrão. É preciso entender o funcionamento de cada edifício, a capacidade de atendimento, os setores existentes, as limitações físicas, as normas aplicáveis e a forma como aquela unidade presta serviço à população”, observa Ricardo.

Outro campo relevante da experiência do engenheiro está em clínicas de diagnóstico por imagem e laboratórios de análises clínicas. Em projetos dessa natureza, a engenharia precisa lidar com exigências específicas relacionadas à proteção radiológica, blindagem, layout técnico, equipamentos pesados, fluxos de pacientes, salas de tomografia, raio-X, mamografia, densitometria, ultrassonografia, coleta de exames, conforto ambiental e adequação sanitária.

A atuação em ambientes de diagnóstico por imagem envolve critérios que vão muito além da arquitetura. Paredes com proteção radiológica, portas plumbíferas, argamassa baritada, controle de estanqueidade, memoriais de cálculo de blindagem, posicionamento de equipamentos, áreas técnicas e validações precisam ser considerados ainda na etapa de projeto. Para Ricardo, esse é um dos exemplos mais claros de como a engenharia hospitalar exige precisão documental.

“Uma sala de tomografia ou raio-X não pode ser tratada como uma sala comum. Existe cálculo, norma, proteção, segurança ocupacional, análise de interferência e responsabilidade técnica. O projeto precisa nascer correto, porque corrigir depois pode ser caro, demorado e operacionalmente complexo”, destaca.

A experiência de Ricardo de Faveri também alcança estruturas voltadas à logística farmacêutica e abastecimento hospitalar, como projetos para centrais de logística e abastecimento de medicamentos. Nesses casos, a infraestrutura física está diretamente ligada à cadeia de suprimentos da saúde. Galpões, áreas de apoio, controle de estoque, circulação de cargas, climatização, segurança, layout operacional e compatibilização técnica influenciam a capacidade de hospitais receberem insumos e medicamentos de forma adequada.

Para Ricardo, esse tipo de projeto reforça a ideia de que a saúde não depende apenas de salas de atendimento ou leitos. “A assistência começa muito antes do paciente ser atendido. Ela depende de logística, armazenamento, abastecimento, energia, água, climatização, segurança e manutenção. Quando uma central farmacêutica funciona bem, ela ajuda toda a rede de saúde a funcionar melhor.”

Outro ponto central é a utilização do BIM como ferramenta de planejamento e compatibilização. Em ambientes hospitalares, a densidade de instalações é elevada. Dutos, tubulações, gases medicinais, elétrica, dados, climatização, hidrantes, sprinklers, esgoto, água fria, água quente, automação, equipamentos médicos e sistemas de segurança precisam coexistir em espaços muitas vezes reduzidos e com pouca margem para erro.

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A metodologia BIM permite visualizar interferências antes da obra, organizar informações por disciplina, melhorar a extração de quantitativos, apoiar o orçamento, reduzir incompatibilidades e facilitar a tomada de decisão. Em reformas hospitalares, essa previsibilidade é ainda mais importante, pois a execução em campo tende a ocorrer em ambientes restritos, com horários controlados e pouca tolerância a retrabalhos.

“Compatibilização em hospital é uma etapa crítica. Quando você identifica uma interferência no projeto, ainda existe tempo para ajustar. Quando descobre isso dentro de uma unidade funcionando, o impacto pode ser enorme. Pode atrasar a obra, aumentar o custo e interferir no atendimento”, afirma Ricardo.

As exigências normativas também tornam o setor hospitalar um dos mais rigorosos da engenharia civil. Projetos precisam observar normas da ABNT, diretrizes da vigilância sanitária, requisitos de acessibilidade, segurança contra incêndio, desempenho de materiais, instalações elétricas em estabelecimentos assistenciais, climatização, controle de contaminação, gerenciamento de resíduos e critérios específicos para áreas críticas, semicríticas e não críticas.

Em hospitais, materiais de acabamento, pisos, paredes, forros, portas e esquadrias precisam ser avaliados em função de higiene, resistência, facilidade de limpeza, durabilidade e compatibilidade com o uso. Ambientes assistenciais não admitem improvisações que dificultem assepsia, manutenção ou controle sanitário.

A acessibilidade é outro elemento indispensável. Hospitais atendem pessoas em situações de vulnerabilidade física, idosos, pessoas com deficiência, pacientes em macas, cadeirantes, acompanhantes e equipes em deslocamento constante. Rampas, sanitários acessíveis, circulação adequada, sinalização, corrimãos, portas, desníveis e áreas de espera precisam ser planejados com rigor.

“A acessibilidade em saúde não é detalhe. Ela faz parte da qualidade do atendimento. Um hospital ou uma clínica precisa permitir que o paciente chegue, circule, seja atendido e saia com segurança. Isso também é engenharia”, ressalta Ricardo.

Do ponto de vista da execução, obras hospitalares exigem cronogramas mais sensíveis. Determinadas atividades precisam ocorrer em horários específicos, finais de semana, períodos de menor fluxo ou etapas sequenciais para evitar paralisação de setores. Serviços ruidosos, demolições, intervenções em redes elétricas ou hidráulicas, desligamentos programados e remanejamento de instalações devem ser planejados com antecedência e aprovados junto à gestão da unidade.

Outro desafio recorrente é a necessidade de trabalhar com edificações existentes. Muitos hospitais brasileiros funcionam em prédios antigos, ampliados ao longo dos anos, com instalações sobrepostas, documentação incompleta e sistemas prediais que não foram originalmente planejados para as exigências atuais. Nesse cenário, o levantamento cadastral, o as built e o diagnóstico técnico são etapas fundamentais.

“Antes de propor uma solução, é preciso entender o edifício. Em reformas hospitalares, o que está escondido muitas vezes é tão importante quanto o que aparece. Tubulações antigas, quadros elétricos, shafts, estruturas, infiltrações, fluxos e equipamentos existentes precisam ser mapeados”, explica Ricardo.

A atuação em hospitais também exige diálogo permanente com múltiplos agentes. Engenheiros, arquitetos, projetistas, fiscais, gestores hospitalares, equipes médicas, enfermagem, manutenção, segurança do trabalho, controle de infecção, fornecedores e administração pública precisam estar alinhados. A complexidade não está apenas na obra, mas na coordenação de interesses, riscos e responsabilidades.

Para Ricardo de Faveri, uma boa obra hospitalar começa com uma boa escuta técnica. “Muitas vezes, o profissional de saúde conhece o problema operacional melhor do que qualquer um. A engenharia precisa transformar essa demanda em solução técnica, normativa e executável. O projeto nasce desse diálogo.”

A modernização da infraestrutura hospitalar representa, portanto, um investimento estratégico para o sistema de saúde brasileiro. Ambientes mais bem planejados contribuem para maior eficiência operacional, melhores condições de trabalho, redução de riscos, conforto aos pacientes, segurança sanitária e qualidade da assistência. A engenharia tem papel direto nesse processo.

Projetos hospitalares bem estruturados também ajudam a melhorar a aplicação dos recursos públicos e privados. Orçamentos mais precisos, cronogramas realistas, projetos compatibilizados e documentação técnica consistente reduzem retrabalhos, aditivos, paralisações e improvisações durante a execução. Em saúde, esse ganho é ainda mais relevante, pois cada atraso pode comprometer a entrega de serviços essenciais.

“Um projeto hospitalar mal resolvido custa caro em todos os sentidos. Custa financeiramente, custa em prazo e pode custar em qualidade assistencial. Por isso, a etapa de planejamento precisa ser tratada com seriedade”, afirma Ricardo.

A experiência de Ricardo de Faveri em projetos hospitalares evidencia uma engenharia voltada não apenas à construção, mas à funcionalidade dos serviços de saúde. Sua atuação em unidades de hematologia e hemoterapia, hospitais municipais, UPAs, clínicas de diagnóstico, laboratórios e infraestrutura farmacêutica mostra uma trajetória ligada a ambientes onde técnica e responsabilidade social caminham juntas.

Para o engenheiro, a infraestrutura da saúde deve ser compreendida como parte essencial da assistência. “O paciente muitas vezes não vê a tubulação, o quadro elétrico, o sistema de climatização, o projeto de incêndio ou a compatibilização BIM. Mas tudo isso influencia diretamente a segurança, o conforto e a qualidade do atendimento.”

A crescente complexidade dos hospitais modernos exige profissionais preparados para lidar com múltiplas disciplinas, normas específicas e alto grau de responsabilidade. A engenharia hospitalar demanda conhecimento técnico, visão de gestão, capacidade de coordenação e sensibilidade para entender que cada intervenção ocorre em um ambiente onde o tempo, a segurança e a continuidade do serviço são decisivos.

“Cada projeto bem executado em saúde representa mais confiabilidade para a instituição, melhores condições para os profissionais e mais segurança para a população. Essa é a principal responsabilidade da engenharia hospitalar”, conclui Ricardo de Faveri.